sábado, 10 de dezembro de 2011

Escolha a alternativa correta.




Apenas algumas horas para o vestibular: cidade nova, curso novo, vida velha. Sinceramente não sei se é o curso da minha vida, só saberei mesmo quando tiver ano que vem na mesma situação: preparando-me para mais uma escolha.

Como numa peça de teatro, em vez de me desejar sorte, gostaria que me desejassem que eu quebrasse a perna!


(Lapis, caneta, borracha, água, ansiolítico, auto-controle e pressão).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Segue o seco.




Cai uma chuva fina, lenta, daquelas cadenciadas, na qual você pode prever quando será o próximo pingo; momento propício para embalar o que eu sinto agora.

Achei que seria fácil, pensei que, sem falsa modéstia, eu com minhas habilidades, nos sairíamos bem – poríamos tudo e todos no seu devido lugar e com o tempo, voltaria a exalar SEROTONINA para todos os lados. Recomeçar não é ruim, difícil mesmo é findar um ciclo para depois começar outro. Infelizmente, existem determinadas situações que se sobrepõem as boas perspectivas de uma mudança física. Elas têm peso, um peso vivo, cansativo. É a fase de adaptação ao novo lugar que não pode ser atropelada como deveria: a duzentos quilômetros por hora por minha vontade de interagir. São os estranhos que circulam rapidamente ao meu lado na rua; os que insistem em me ignorar no trabalho; as ruas que tendem a me confundir sempre com seus nomes novos e suas esquinas inexploradas. É o ar seco que alimenta ainda mais minha congestão nasal.

Sinto um leve arrependimento... O sentimento de desafio, agora se encontra adormecido, ao contrário das minhas lembranças de tempos atrás que estão cada vez mais vivas.

Ô chuva vem me dizer
Se posso ir lá em cima prá derramar você
Ó chuva preste atenção
Se o povo lá de cima vive na solidão
Se acabar não acostumando
Se acabar parado calado
Se acabar baixinho chorando
Se acabar meio abandonado
Pode ser lágrimas de São Pedro
Ou talvez um grande amor chorando

(Marisa Monte, Segue o seco).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um par.



Um ParLos Hermanos
Composição: Rodrigo Amarante
Mesmo quando ele consegue o que ele quis,
Quando tem já não quer
Acha alguma coisa nova na TV
O que não pode ter
E deixa de gostar
Larga mão do que ele já tem
Passa então a amar
Tudo aquilo que não ganhou
Dê motivo pra outra vez acreditar
Na cascata da vez
Que você comprou assim zero mais dez
Um presente pra mim
Mas se eu perguntar
De onde veio esse agrado
Você vai gritar
Diz que é homem feito, sei não
Ah faça-me o favor
Diga ao menos o que foi
E se eu faltei em te explicar
Diz que a gente sempre foi
Um par
Sai domingo diz que é o dia de jogar
Mas que jogo eu não sei
Fica até segunda o dia clarear
E troféu não se vê
Entra sem falar
Sai correndo e volta outra vez
Sem cumprimentar
Nem parece aquele
Eu rezo, ai deus do céu
Ou alguém no chão
Diga-me o que foi
Que eu deixei faltar
O que eu não consigo é entender
Como é que um filho meu é tão diferente assim
De mim
Me faz entender.

(Acho que sou assim, exatamente assim, milimetricamente assim, larga mão do que já tem e passa a desejar tudo aquilo que não ganhou. Isso justifica minha gana, minha vontade e meu descontrolado impulso. Há, se não fossem eles, quem eu seria. A velhice é física apenas, meus atos continuam atemporais.
Abri uma garrafa de cerveja e depositei nela todas as minhas expectativas, respirei fundo, imaginei, desejei, absorvi. Eu quero muito mais, estou lutando e planejando para conseguir mais...entretanto ainda não sei mais o que eu quero...)

Toca pra mim...





Estava correndo como um jovem sonhador atrás dos seus ideais, transpirava por todos os poros do meu corpo; a mente, concentrada, tentava dosar minha energia durante as minhas rápidas passadas. Meu corpo já não responde aos mesmos estímulos de anos atrás, mas ainda continua com a mesma coordenação motora para executar movimentos repetitivos.

Queria voltar no tempo, queria poder mudar minúsculos erros, quase imperceptíveis à vida cotidiana – nada de melancolia ou arrependimentos, apenas um aperfeiçoamento do meu destino, uma nova chance para velhos acontecimentos.

Há tempos não praticava um esporte coletivo, há tempos não disputava algo com tanto afinco, liberdade.

Não esqueci aquilo que havia aprendido há quinze anos - apenas alguns minutos, ritmo de jogo, colocaram-me novamente no patamar de um astuto armador. Havia se passado vinte, trinta minutos de jogo, estava esgotado fisicamente, mas superava pela vontade. Dado certo momento pedi a bola com vigor:

– Toca para mim, toca para mim!!!

Era uma chance real de gol, bola curta, próximo a linha do escanteio. Naquele momento concentrei toda a minha força num chute. Corri para a bola com o máximo de velocidade e desferi um chute mascado, acompanhado de um desequilíbrio do pé de apoio e uma dolorida torção de tornozelo.

Cai no chão, sentia meu tornozelo formigar, executava poucos movimentos com o pé, tamanha era a dor. Era o fim de jogo para mim. Recolhi-me mancando, tentando me equilibrar numa perna só, com medo de firmar o tornozelo fraturado.

Estava tentando voltar no tempo em atos – executando atividades que me remetiam ao passado, mas infelizmente a minha realidade é outra, não posso corrigir pequenos passos dado no passado, forçando meu presente.

A dor, esta sim é atemporal – tanto a física quando a emocional – a física acaba sempre passando, já as outras...


sábado, 19 de novembro de 2011

Boom.



Bocejo como um louco; evidencias indicam não haver sono, mas não consigo controlar este impulso. Meus olhos estão estalados, em estado de alerta, pele sensível, respiração deveras ofegante. Deveria ter sido mais prudente, é verdade. Minhas mãos estão trêmulas tal qual um quem não come há dias. Não sei o que fazer, sinceramente – viver, atualmente com doses parcas de remédio, fracionadas para durar até a próxima sessão terapêutica está literalmente me engolindo. Sinto medo do nada, do silêncio, dos ruídos. Suo em bicas mesmo sem fazer o mínimo esforço físico. Não há paliativos, não psicológico, é químico.

Ansiedade em seu estado puro, bruta e violenta em doses homéricas. Preciso de um ansiolítico descansando lentamente no meu estômago.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Fuel.



A ansiedade é um monstro, quando mais alimentada maior fica e, conseqüentemente, sem controle. Começa dentro do peito e como numa reação em cadeia, espalha-se por todas as partes do corpo. O corpo todo treme, pulsa, gela. Calafrios, confusão mental e um leve desespero tomam conta das situações.

Seu alimento é a incerteza, o futuro, as decisões: quanto maior a expectativa, maior o efeito rebote. Por ora experimento pequenas porções de ansiedade, geralmente em picos noturnos. Temos uma relação estreita, a ansiedade sempre me impulsionou, seja para o bem ou para o mal. É um sentimento paradoxal: é o meu combustível, mas ao mesmo tempo torna-se perigoso demais, se consumido em altas doses.

No momento meus receptores da ansiedade estão parcialmente bloqueados, o que me rende relacionamentos sem expectativas, mudanças abruptas de planos e boas noites de sono.

domingo, 23 de outubro de 2011

Momentos mornos.


Insônia é algo que não faz mais parte do meu cotidiano. Queria poder tomar um café preto, amargo, degustar de bons momentos de reflexão, à luz da falta de sono, olhos estalados, corpo febril, mas os remédios me impedem...

A vida nos reserva momentos intermediários de sentimentos. Nem de tristeza absoluta, nem felicidade extrema. São intervalos, hiatos que beiram o tédio, e geram inconformismo. São situações perigosas, principalmente para quem é alimentado por uma instabilidade descomunal. Mudar de ares me fez cair num ostracismo que há tempos não era sentido, remetendo a minha acanhada adolescência, onde conflitavam hormônios com a depressão.

A minha imensa parte que vive a me corromper por popularidade, agora, destoa totalmente daquilo que vivo: um sem-fim de expectativas murchas.

Neste exato momento estou me questionando o porquê de correr atrás de um carro em movimento, tal qual um cão que o persegue com afinco, de ofício. Continuo a correr sem parar, cada vez mais, esperando que ele não pare, evitando assim uma tomada de atitude.

Estou numa fase longa, sufocada por poderosos remédios que limitam a minha criatividade e influenciam diretamente as minhas tomadas de decisão. Não é melancólico, mas há tempos meus olhos não brilham por mais de dias seguidos – continuidade, seqüência.

Peguei-me, no meio de um raciocínio, durante a resolução de um problema matemático, me questionando o porquê de resolvê-lo. Achei a solução para a equação, para meu desespero total. Noutros tempos, apenas encontrar a solução seria o ápice, independente do objetivo fim.

Estou estranho, é verdade, preciso parar de me esconder atrás de metáforas e voltar a ser eu mesmo, que tanto trabalho me dá, contudo me rende ótimas experiências de vida e bons textos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pragas urbanas.

Pós rebelião, estávamos todos reunidos, nós – os agentes, e os presos responsáveis pela limpeza do local. Um dia atípico, os sinais da destruição estavam por todas as partes: paredes quebradas, grades entortadas, colchões queimados e uma sensação de impotência reinava sobre nossas intenções. Eu, recém transferido, ainda me confundia nos caminhos da imensa construção, mal tive tempo de memorizar as saídas. Embora tentando fugir do senso-comum, não conseguia assimilar o duro golpe dado no aparato estatal, continuava procurando respostas e acalento.

Durante a limpeza, muito entulho sobre os corredores, proporcionou o aparecimento de ratos. Eram muitos, de todos os tamanhos, espécies. Dado certo momento, o nosso cruzamento era inevitável e foi o que aconteceu. Enquanto observava um preso remover os entulhos, avistei um enorme rato vindo em minha direção, completamente desesperado e sem ter por onde desviar. Por um instante, os presos voltaram a sua atenção para o rato desesperado e, conseqüentemente qual reação seria a minha. Noutra ocasião, talvez apenas me esquivasse do animal, deixando-o seguir, mas minha atitude, devido à platéia, deveria ser mais enérgica.

Desferi, ainda sem jeito, um chute que o acertou em cheio, contudo ele se recompôs e continuou a vir na minha direção; desta vez com mais força, o rebati contra a parede, atordoado, ficou estático. Foi o tempo de um preso pegar um tênis que estava perdido no meio da sujeira e desferir violentos golpes, vários, mesmo enquanto já parecia certa a morte. O rato, vencido, já morto, deixou um lastro proporcional de sangue, ainda sentia o ódio e espírito assassino do preso, que só parou de bater quando o animal parou de estremecer. Rindo, teceu o seguinte comentário: “...mais uma alma para o além”.

Preciso rever meus conceitos sobre direitos humanos.

sábado, 17 de setembro de 2011

Rebelião.





80% da CCM foi destruída

Roberto Silva e Rubia Pimenta

Engenheiros da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e dos Direitos Humanos (Seju) concluem hoje a vistoria na estrutura da Casa de Custódia de Maringá (CCM), palco de uma rebelião que durou 23 horas, encerrada na manhã de ontem.

Eles vão verificar os danos estrutural causados durante o motim e apontar as obras que serão necessárias para recuperar a unidade prisional.

Segundo a assessoria de imprensa da Seju, 80% do mobiliário da CCM, principalmente camas e colchões foram destruídos. Já o Sindicato dos Agentes Penitenciários do Paraná (Sindarspen) afirma, com base em informações passadas por agentes que trabalham na unidade, que 90% foi destruído pelos presos.

Grades, muros e portas foram quebrados e pertences espalhados por todas as galerias. A possibilidade de interdição da unidade, por enquanto, foi descartada.

A rebelião terminou depois que a secretaria aceitou transferir 31 detentos para unidades prisionais de suas cidades de origem, acatando uma das principais reivindicações dos rebelados. Dos 900 internos no presídio, aproximadamente 400 participaram do motim.

Detentos rebelados mostram os presos que foram feitos reféns; apesar de exaustos, eles não se feriram

Eles mantiveram como refém o agente penitenciário Paulo Arruda e dois presos, que foram liberados assim que a rebelião foi encerrada. Apesar de exaustos, eles não foram feridos.

Durante a manhã, os presos ainda atearam fogo a roupas e colchões em um dos setores do presídios. Os integrantes do grupo conhecido como "Ferro Velho", em Maringá, liderados por Benedito Batistiole, foram os últimos a se renderem. Eles foram presos no início de julho em uma operação da Polícia Federal (PF).

Logo após, os amotinados desceram da laje e ficaram deitados, apenas de roupas íntimas, no pátio do presídio, para revista. A Polícia Militar (PM) e agentes penitenciários iniciam um processo de varredura na Casa de Custódia, para avaliar os estragos e recolher as armas utilizadas pelos rebelados.

Transferências

Maico de Souza Moretti, 25 anos, conhecido por Guerreiro, tido como líder da rebelião, e outros 22 presos foram transferidos ontem por volta das 11h para um centro de triagem em Curitiba, de onde seriam posteriormente remanejados para unidades em suas cidades de origem. Outros oito presos aguardavam contato Vara de Execuções Penais com a Justiça de outros Estados para que sejam transferidos.

O comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar (BPM), Chehade Elias Geha, não permitiu que a imprensa acompanhasse a descida dos presos.

Os primeiros internos foram transferidos logo após o término do motim

Familiares se revoltaram com a atitude e tentaram barrar a entrada de uma das viaturas no presídio. Houve confronto com a polícia e algumas mulheres disseram ter sido agredidas. Elas temiam que os policiais agridam os presos que ficarem no presídio, fato que foi contestado pela PM.

Início

A rebelião na Casa de Custódia foi iniciada por volta das 12h30 de segunda-feira, com cerca de 20 detentos que estavam na galeria 2, e se espalhou rapidamente. Presos do regime semiaberto e pertencentes a grupos evangélicos não aderiram ao movimento.

Os rebelados chegaram a hastear uma bandeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa conhecida pela atuação em presídios do Estado de São Paulo. Não houve confirmação se os amotinados tinham relação com a facção.

Os detentos reclamavam que eram constantemente agredidos e recebiam comida "azeda". A Justiça vai analisar as denúncias de maus tratos e de má alimentação na penitenciária. Também cobravam mais agilidade nos processos de pedido de liberdade na Justiça em Maringá.

A rebelião terminou com um ferido. Trata-se de um interno que tentou fugir da CCM , durante o motim. Ele levou um tiro no ombro, foi internado e passa bem.

Mais remoções

A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e dos Direitos Humanos informou que nos próximos dias haverá o remanejamento de mais presos para outras unidades, de acordo com um levantamento que está sendo realizado. "Temos mais de 100 presos do regime semiaberto que poderão deixar a Casa de Custódia de Maringá agora", afirma o diretor do Departamento Penitenciário, Maurício Kuehne. A CCM tem capacidade para 500 presos, mas abrigava quase 900.

O meu 11/09.

Pensei em tomar um café para despertar, ou fumar um cigarro para aliviar a tensão que cercava a situação, mas lembrei que nunca me dei bem com a nicotina e há tempos não aprecio o café. Sabia que mais hora menos hora isso aconteceria e confesso que fiquei chocado, porém não me deixei intimidar.

Estas situações presenciamos apenas em cursos de especialização, história de funcionários antigos, filmes, nunca esperamos ser acometidos. Cansaço físico, estafa emocional, tensão, preocupação...

...Caos.

- Poderia ter sido eu como refém, é o que se passou na maioria dos agentes. Fiquei imaginando como seriam minhas reações, o desespero, o medo, a impotência...

Participar da rebelião foi mais uma experiência para guardar dentro do meu estimável baú, entretanto, acho que preciso de férias.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Solamente acá en Foz.


Ainda não sinto os efeitos da melancolia, mas é fato que nos próximos dias este sentimento será devidamente cultuado no meu novo refúgio. Estava na hora de mudar – as conseqüências do meu comportamento demonstravam isso. Tentei calcificar minhas raízes o quanto pude, mas não havia mais onde tirar motivação para me manter parado neste lugar. Não havia mais ninguém a ser conhecido, nenhum lugar a ser ido, nenhum erro a ser cometido.

Redundante dizer que sentirei falta do lugar, das coisas, das pessoas, do clima e principalmente das experiências.

Acredito que esta imagem retrata bem meus cinco anos passados aqui.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

E que tudo mais vá para o inverno.




Estou com o pensamento longe, mais especificamente na estratosfera. Tenho viajado espaçadamente, sem força da gravidade – vou e volto em qualquer direção sem compromisso, bem lentamente. Pego carona em ricos fragmentos de lembranças de um passado recente, deixo que, sem peso algum ele me guie de volta àquele que foi meu melhor momento. É como se eu estive absorto em um mundo imaginário – alheio a qualquer espécie de realidade.

Não sinto as dores, os lampejos e as lamúrias de uma rotina agora já integrada ao plano comum.

Os meus dias são curtos, passam-se lentos, foco meu ponto de visão em algo e vejo objetos parados movimentarem-se para os lados, como se fora efeitos especiais. Sinto minha pele anestesiada, sensível ao ponto de ser amaciada pelo vento. A chegada da nova estação aguça ainda mais a minha sensibilidade.

A vontade de manter-me inerte é osmótica, ficar esperando algo que eu não sei o quê nem sei quando acontecer, não é um desejo, mas sim um objetivo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Apagão.



Estou me sentindo temporariamente inativo. Apesar do tempo que me sobra a única coisa que produzo é matéria orgânica e bocejos. Nunca os dias se tornaram tão longos como os de hoje, ontem e os próximos. Um ócio totalmente improdutivo, juntado com uma necessidade física de descanso. Descaso, desinteresse, falta de apetite. Não estou mastigando mais nada, apenas engulo com um pouco de tolerância. Estou de saco cheio. Cada novo bocejo sinto passar alguns meses da minha vida. Minha cama improvisada me chama, a televisão me emburrece, a internet me desestimula. Estou estático – não envelheço nem fico mais jovem. Limpei minhas roupas, tirei traças dos meus livros. Não me falta tempo, quero vontade. Preciso de uma explosão interna. Brio nas minhas veias, criatividade no meu ócio, paciência para as minhas conseqüências.
Hoje sinto falta de um não sei o quê, vontade de ir bem longe, caminhar perto de…

Ainda bem que amanhã é outro dia.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Café no T.P.I.




Início de dezembro de 2010, o dia começa cedo no T.P.I. (Tratamento psiquiátrico intensivo); aproximadamente 5:45 a.m. ouve-se os gritos frenéticos dos técnicos em enfermagem:

- Café T.P.I, café, olha o café!

As luzes são acesas na medida em que os gritos se tornam mais intensos pelos frios corredores. Sim, isso significava uma ordem; hora de levantar, lavar o rosto e tomar o farto café da manhã: Um pão francês semi-seco dividido em duas partes; todos os internos sonolentos, dopados ainda da medicação da noite anterior. O café preto era distribuído separadamente, juntamente com a medicação, logo cada interno era chamado para pegar seu complemento.

- Dormiu bem fulano de tal.

- Hããã....é....

Acordava, invariavelmente sonolento, acometido pelos mais variadas reações adversas dos remédios. Eu dispensava o café preto, mas fazia questão dos pães, fato este que me motivava a doar o café e tomar meus seis comprimidos das mais variadas formas e cores com meu belo exemplar de pão simplesmente à seco.

- Ó o cigarro T.P.I., cigarro no T.P.I, quem vai fumar, vá se agilizando, - aos berros, gritava o enfermeiro. Cigarro.

Nós éramos divididos em três grupos: A, B e C. O primeiro era dedicado aos depressivos, aos dementes, suicidas; um grupo brando. B, tratava-se de alcoólatras e dependentes de nicotina – resumindo, um grupo de bêbados e fumantes. E por ultimo o menor e seleto grupo C. Este nada mais era do que a soma do A com o B mais o advento da drogadição. Grupo que demandava mais atenção, pois as crises de abstinências eram constantes e as reações mais inesperadas.

O grupo C tinha os remédios mais potentes, as sessões de terapias eram as mais torturantes e as historias de vida muito parecida. Não era a minha realidade e, a cada minuto naquele lugar, eu tinha mais certeza disso. Foi um lapso, um deslize tardio, uma necessidade de algo que não sei explicar, mas não era para mim.

Eu não fumo, mas ficava atônito vendo quem não tinha dinheiro ou familiar para levar cigarro, implorando por um trago, Não sabia o porquê de o cigarro ser liberado numa unidade de terapia e não estava interessado, porque meu grupo tinha outras necessidades bem mais imediatas. O cigarro era autorizado no intervalo das refeições para quem os tivesse.

Eu fiz amizades por empatia, cúmplice de medicação, de atendimentos diários com a equipe medica, dos jogos de dama e das intermináveis alucinações causadas pelos remédios. Adaptei-me ao ambiente; aos poucos fui decorando o nome dos enfermeiros, médicos e afins, já dos pacientes só guardava mesmo os que conversavam comigo e as suas respectivas patologias

Fartos de café e cigarro era hora de esperar; chá de cadeira para a chegada das medicas – cada grupo com a sua respectiva profissional, que na sua maioria eram mulheres e jovens. As filas iam se formando e os conflitos também, eu me esquivava, pois sabia que um deslize acarretaria mais uns dias naquele cárcere. Formavam-se hordas de pacientes sob efeito de sedativos, todos falando com dificuldade, tentando se equilibrar e mesmo nestas circunstancia, trocando estratégias para usar com a equipe médica.

Era chegada a hora de falar com a minha médica: uma sarcástica mulher alva, alta, de nariz afinado e pontudo, corpo saliente e sempre de saias longas. Belos olhos verdes que sabiam exatamente lidar comigo, Nunca encontrei uma profissional assim; talvez seja o acaso, mas ela conseguia exatamente como lidar comigo. Fazia entrar-me em contradição, e enquanto estava calmo perguntava-me o porquê do nervosismo. Cheque-mate. Nunca ganhei uma seção dela, meu poder de persuasão, meu teatro, minha habilidade com a dialética, não eram páreo para aqueles lábios ácidos como limão. Odiava sua risada irônica e a forma como me fazia diminuir apesar da situação. As medicações eram ajustadas de acordo com as minhas reações e, a cada visita, aumentava a miligramagem – as visitas eram diárias e o acompanhamento era em tempo integral.

Era nos passado pelos colegas mais antigos de casa que era feito sempre uma pergunta pela psiquiatra e, de acordo com a resposta ela estipularia a alta médica. Geralmente a pergunta era qual dia numérico era do mês. Ficávamos decorando por minutos, fazendo força para não esquecer, mas fui descobrir depois da internação que quanto mais errar melhor, pois o erro significa que estamos tomando o remédio, a confusão mental é resultado do tratamento.

Foi-me dito que seria uma estada de sete a dez dias, mas com o passar do tempo e dos comentários dos colegas, descobri que esta data fictícia era para tranqüilizar os pacientes no começo, mas na verdade a média era vinte e cinco a trinta dias para o grupo C.

A primeira semana fiquei tranqüilo, pouco me importava com a alta médica, pois os remédios estavam me fazendo bem, mas com o passar do tempo aquela rotina maçante e o fato de me sentir preso me deixava contrariado. Tomava tanto remédio na primeira semana que não conseguia caminhar pela manhã, nós literalmente babávamos em certa circunstância. Com o passar dos dias meu medo aumentava cada vez mais, o poder da equipe médica era total sobre meu tratamento. Não tinha o direito de opinar, sugerir, apenas ficar na expectativa. Estava interditado literalmente.

Recebi visita todas as semanas em que passei internado, isso atenuava o cárcere, mas o que mais me deixava mal era não poder resolver eu sozinho meus problemas e delegá-los aos meus parentes. Custei a aceitar, mas com o passar do tempo, abri mão de tudo, coloquei os problemas no papel e eles tomavam as providencias.

As sessões de terapia eram torturantes, uma incógnita sempre, então mesmo com calmantes para elefante eu não conseguia descansar, ter uma noite satisfatória de sono. Vagava pelas madrugadas dos corredores largos do hospital, deitava no chão, esticava as pernas, ficava à deriva da minha psique alterada, sentindo-me o próprio psicótico que a medica preconizava.

Nunca estava sozinho, sempre havia um de nós pelos corredores; ora procurando por atendimento médico, ora vendo televisão refeitório ou simplesmente conversando com deus. Eu gostava de tomar meus remédios e deitar na varanda, nos imensos bancos de concreto e ficar olhando para o céu sem ser observado, apenas esperando os medicamentos fazerem efeito.

Eu queria sair de lá, sentia-me como uma personagem que fora internada por engano. Não deixava os pacientes com problemas mentais se aproximarem de mim, tinha receio, mas este contato era inevitável e quando acontecia sempre gerava conflitos. Estávamos numa zona sem lei onde todos eram inimputáveis então qualquer tipo de ameaça para comigo era tratada com agressividade; agressividade esta, maculada somente nos picos da medicação.

Fui contido duas vezes; uma para defender meu território e a outra para me defender de ataques psicóticos. Havia algo de especial na medicação que absorvia o medo de nós todos. Éramos seres fortes, que não sentíamos dores, frio, fome, calor, nada. Por se tratar de hospital psiquiátrico não havia objetos que pudessem virar armas, tudo era controlado, por isso fiquei muito tempo sem ver meu rosto. Na primeira oportunidade que tivemos, fomos levados ao pavilhão em anexo, onde ficavam os pacientes em terapia laboral, lá fomos encaminhados ao barbeiro. Pedi para que cortasse todo cabelo da minha cabeça e fizesse minha já comprida barba. Antes, olhei para o espelho e estava irreconhecível.

Durante o tratamento tive diversas crises de choro, solidão, abstinência, agressividade, depressão profunda tudo isso contrastando com cinismo, crises de riso durante as sessões, manipulação, raiva, felicidade, paz interior e uma enxurrada de sentimentos misturados. Longe de ser uma experiência traumática, foram os trinta dias mais inesquecíveis da minha vida - ainda sinto o cheiro das roupas lavadas com sabão em pó industrial da T.P.I.

Em certos momentos chegava a pensar se realmente eu não era um deles, se aquele lugar não era para mim, pois estava diretamente flertando com a minha loucura.

(...) Queria agradecer minha família em especial por proporcionar este tratamento que foi em caráter de último recurso para meu tratamento, logo não posso culpá-los.

domingo, 22 de maio de 2011

Lacrimosa.

Estava tudo transcorrendo bem; final de tarde, clima ameno, dominical, familiar. Sentei para escrever sem compromisso – comecei a pensar aleatoriamente em familiares, mais especificamente na minha mãe e em seguida na minha avó.

Minha arvore genealógica viva.

Senti meus pequenos olhos trêmulos, encherem-se de lágrimas rapidamente. Sem motivo aparente – sem trilha sonora, fotografia, nem fragmento de lembrança que pudesse suscitar meu pranto.

Coloquei-me a chorar, as lagrimas escorriam a revelia, pouco pude fazer – simplesmente deixei-as seguirem seu curso normal, mas tentando encontrar uma razão para este leve desespero. Aos poucos fui me recompondo: as sobrancelhas voltando ao seu tônus natural, olhos sem desespero numa face tranqüila.

Este fenômeno durou o suficiente para encabular minha coragem, esta de querer peitar o mundo em busca da minha felicidade a todo custo, sem pensar nas conseqüências, nas distâncias...

Entre respiração ofegante e brilho nos olhos aspirando um futuro promissor: raízes.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nem desistir nem tentar... estamos indo de volta para casa...


É com pensamento convencido que vou aos poucos recolhendo minha outrora cansada carcaça, agora recuperada de tanto esforço emocional e colocando-a lentamente nos trilhos de uma rotina já previamente experimentada por mim.

Rotina esta, largada aos flancos, obstruída por uma saída abrupta da minha própria vida – num resgate providencial, executado por um esforço descomunal de várias partes, pus-me recluso.

Deixei meus amigos próximos se cansarem de pedir minha presença, acolhi com atenção os conselhos e anseios dos familiares quanto ao retorno e assim calcifiquei minha decisão: eu vou voltar ao trabalho e conseqüentemente a morar sozinho.

Olho para o espelho pelas manhãs e procuro ver o que mudou nestes cinco meses, o que consegui absorver e o que fora transpirado e a maior lição a que chego é que eu nunca estarei sozinho novamente. Por mais que eu tente, por mais que eu queira, por mais distante que eu vá, quanto maior a quantidade de problemas, sinto que não estarei mais sozinho.

Foi uma oportunidade ímpar na minha vida, tirei férias de mim em três estágios: internação psiquiátrica, terapia intensiva e readaptação familiar. Todos momentos marcantes, experiências incríveis, dignas de início de década. Neste ínterim, era como se eu estivesse sentado numa mesa circular com todos os meus fantasmas e pudesse perguntar o porquê de terem me assombrado tanto.

O destino será o mesmo de cinco anos atrás, a cidade em que me remodelou em quatro anos, desta vez literalmente com mais bagagens, partindo do mesmo ponto, desta vez sem amarras, com menos planos e mais objetivos.

- Conversando com minha querida, lúcida e octogenária avó sobre meu retorno ela com toda sabedoria dizia que me apoiava, apesar de querer que no fundo eu fosse demitido e arrumasse outro emprego aqui na nossa pacata cidade. Lutar contra ordens naturais do universo é algo que não me atrai mais...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mal contato.





Toda vez que ligo o meu velho computador, sigo o mesmo ritual: digito uma senha sem nem mesmo saber o porquê de tê-la posto, aguardo pacientemente o cansado hardware iniciar todos os aplicativos, depois vou fechando os desnecessários; abro meu editor de texto e, na seqüência, o player de musicas. Coloco-o para tocar, como sempre, no aleatório, mas noto que o volume está baixo por um problema de contato. Tento corrigir o problema, ouve-se barulhos, estalos das caixas, até que o som se estabiliza.

O ambiente externo pouco me influencia: se dia, noite, frio, calor, companhias ou não. Por razões que desconheço, prefiro as tardes, solidão e o frio para escrever, sempre acompanhado de uma bebida, nem que seja a saliva para não engolir a seco.

Depois de ajustar o cabo de áudio, sento-me novamente, relaxo o corpo deixando-me levar pela musica. Gosto de escrever a esmo quando não tenho algo em mente; também tenho o hábito de visualizar fotos concomitantemente com a escrita. Deste ritual entrelaçavam-se longas conversas pela internet com amigos, horas a fio contemplando uma tela em branco, bebendo, sorrindo e produzindo palavras que me nutriam por muito tempo. Ficava sempre exaurido – raramente terminava de uma única vez e, quando acontecia, depois eu sempre dormia exausto.

De uns tempos para cá, sem tom melancólico, não tenho tido a mesma sensação de prazer e intensidade, como conseqüência disso não tenho produzido mais. Tudo o que eu escrevi neste ano passado, resume-se ao que eu escrevia em dois meses quando em épocas áureas. Algumas coisas me fazem falta, são símbolos, para dizer a verdade, e tenho extrema dificuldade em achar substitutos para estes objetos/pessoas/lugares/sensações/sons/épocas.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ave Cesar.




Confesso não ser fanático por filmes, mas sou um entusiasta de personagens sem limites, na ficção – principalmente quando o mote principal é o poder. Fato este que deve justificar esta minha estranha atração por figuras reais com tais características. Atração que invariavelmente resulta em admiração ou revolta, entretanto, são crescentes – independente da característica principal de personalidade.

Esta semana voltou à cena – desta vez de forma virtuosa, - nosso responsável senador da república, Roberto Requião. Para quem não sabe o que faz um senador e não quer esperar o Tiririca se eleger para explicar, vai a dica: o senado é a segunda casa legislativa da república, serve basicamente para barrar os projetos que o congresso federal demora para aprovar.

Os políticos do alto calão mantêm um nível peculiar de trabalho: são abastados, educados, eloqüentes, negociadores, articulados, jogadores e prezam pela sua figura pública. Roberto Requião resume todas essas características, exceto as que envolvem duas partes: não negocia, não joga e conseqüentemente não perde. Requião traz à tona o velho político da época do Brasil império, do voto de cabresto, onde a democracia existe apenas para a casta dos bem nascidos; manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Coronel Requião, manda prendê e manda sortá! Nepotista que é, coloca os filhos para trabalhar com ele, a mulher, sobrinhos, genros, noras, primos e qualquer um que o enalteça. Contrata e demite seus pares em questão de minutos, não respeita concurso, patente, experiência, nada.

Tive a desagradável experiência de estar sob as ordens diretas de Roberto Requião, quando, então, governador do Estado do Paraná – foram cinco anos de desmandos, abuso de autoridade, falta de respeito em público com os funcionários Estaduais, ofensas a jornalistas, censura a imprensa, perseguição a sindicatos, massacre a associações, políticos rivais e contra qualquer um que se opusesse à sua palavra.

Estes fatos são corriqueiros na vida de qualquer político, mas o que mais chama a atenção, o que faz inflamar o ego do senador é a forma como ele age diante destes fatos, pois é aí que ele mensura seu poder. Qualquer um se contentaria em minimizar um entrave destes, mas Requião faz questão de debater em público e desafiar as autoridades. Seu poder sempre está em xeque, acredito que acima de tudo, até mesmo do dinheiro. Uns entram na política por dinheiro, outros por poder, há sim, existem os sonhadores que tentam fazer alguma coisa.

Desta vez o senador se irritou quando o repórter da Rede Bandeirante perguntou sobre a aposentadoria especial que ele recebe do Estado do Paraná por ter sido governador por oito anos, o equivalente a vinte e cinco mil reais. Diante do questionamento, Requião se irritou, tomou o gravador, avariou o equipamento e ameaçou bater no repórter, caso perguntasse novamente sobre isso.

Hoje, meu atual “patrão” não esboça sequer sombra do seu antecessor, tem personalidade adversa, e é avesso ao populismo. Sei que o atual governador não me renderá boas criticas, mas com certeza, teremos grandes avanços cívicos, profissionais, de urbanidade no trato em negociações, enfim, progresso nas relações trabalhistas.

domingo, 27 de março de 2011

O dia em que eu quase morri.




Era uma rua bem conhecida por mim, estava com o carro estacionado bem em frente à escola pública na qual eu completei todo o meu ciclo primário de educação. Aparentava ser um final de tarde, aproximadamente dezesseis, talvez dezessete horas, o sol não estava mais a pino, estávamos sob a sobra de grandes ipês - arvores características do bairro da minha escola. A via estava cheia de carros estacionados a formarem ângulos de quarenta e cinco graus em relação à calcada. Pouco movimento, o silêncio pairava sob o calmo bairro residencial da tranqüila cidade do interior.

Eu estava dentro do carro, com as portas abertas, sentado na posição fetal, no banco do motorista, ouvindo música e observando a movimentação na rua. Parecia ser uma cena qualquer do meu cotidiano, destas que passam despercebidas na nossa rotina diária e que nosso cérebro nem faz questão de armazenar, entretanto foi que ouvi um estampido. Pelo ruído aberto, seco, alto pude inferir que se tratava de disparo de arma de fogo, virei minha cabeça e vi um rapaz jovem, com uma arma na mão, parecia ser uma pistola automática, estava desengatilhada; havia três crianças a sua frente, todas correndo. Ele gesticulava e falava sobre seu time de futebol, eu não conseguia entender o que queria dizer.

Fui tomado por um leve desespero, senti o cheiro da pólvora entrar pelas minhas narinas, resolvi não sair do carro e correr, pois estava muito próximo a mim, foi então que se aproximou em minha direção lentamente e, rindo, rapidamente engatilhou a arma. Não tive reação alguma, ele apontou a arma e disparou à queima roupa. Deu apenas um tiro certeiro que atingiu a região do meu músculo trapézio – entre o ombro e o pescoço -, bem próximo a minha veia jugular. A primeira sensação que tive foi do forte impacto do projétil no meu corpo, logo depois veio a surdez devido ao ruído do disparo, não conseguia ouvir nada, fui perdendo rapidamente muito sangue, sentia jorrar pelos meus ombros e escorrer pelos braços, a perfuração queimava, ardia, eu tentava controlar a respiração, mas era em vão, parecia um processo sem volta. Eu estava morrendo. Tive certeza de isso estava por acontecer quando começaram as convulsões – os tremores involuntários tomaram conta da metade do meu corpo, sentia calafrios.

Faltavam poucos segundos para o meu suplício, já tinha dado conta de que era o fim – era a minha única certeza, eu iria morrer. Nos poucos instantes que me restavam eu dividia entre me debater pela vida e pensar na certeza da morte. Faltava pouco para eu morrer, estava perdendo os batimentos cardíacos e a visão, estava perdendo as forças e foi quando acordei desesperado.

Assustado, coloquei a minha mão no suposto ferimento e para minha surpresa não estava sangrando, pois bem, eu estava sonhado. Por um instante não queria ter acordado, eu estava quase lá, quase chegando ao fim. Eu queria ter morrido não por motivos pessoais, mas por curiosidade. Foi tão real, cada detalhe, as cenas, as sensações, as imagens que o fim, de algum modo reproduziria uma realidade.

Mais uns segundos e eu saberia a resposta para a pergunta que ninguém pode me responder.

sábado, 19 de março de 2011

No come down.




Tem horas que a minha vontade é colocar o player nas músicas do Verve para tocar, ascender o cigarro que nunca fumei, tomar uma Cerveja Müller – que seria minha nova preferida; debruçado no balcão de um pub, respirando toda a fumaça e de preferência sem acesso à luz do dia. Servido pacientemente por garçons oriundos do Leste Europeu, mão de obra barata e bonita e; cercado por pessoas estranhas vagando ao meu lado: policiais assassinos, soldados da guerra-fria reformados, atrizes circenses, ex-padres, cantores líricos e vegetarianos. O horário escolhido seria o agora; medido por bocejos matinais e entregadores de leite puro, casa por casa. O idioma corrente deste círculo seria indecifrável aos comuns; criptografado por pessoas hereges, permeadas por pensamentos insanos, de contestação. A nossa moeda seria a melancolia.


Nunca me senti tão limitado assim, como agora, nesta noite. Estou no lugar errado, na hora errada e na época errada e fazendo coisas tidas como certas.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tsunami Hits.

Desde pequeno cresci sob a influência nipônica – meu melhor amigo era descendente, membro de uma grande família de japoneses, os Takakura, que vieram para o Brasil na década de 50. Passei minha adolescência a freqüentar aquela casa lotada de costumes estranhos, regada a muita tecnologia, comida insossa, cultura milenar e disciplina nos estudos. Nossa amizade era unida pela curiosidade; ele ficava admirado de como éramos capazes de nos divertimos tanto em tão pouco espaço de tempo e nós admirados com aquele universo deles que não era aproveitado da forma como nós aproveitaríamos.

Foram aproximadamente dez anos de convivência a fio, amizade de moleque, de jogar bola no parque, de ir para escola juntos, de um tempo que não volta mais. O tempo passou, comecei a trabalhar aos dezenove anos, ele foi embora para o Japão seguir o rumo de muitos decasséguis, que tentam acumular dinheiro trabalhando até quinze horas por dia. Perdemos contato, nos distanciamos, mas há dois anos nos encontramos nas redes sociais e soube que retornara ao Brasil.

Atualmente estava me sentindo constrangido em viver, mesmo sendo um cidadão comum, insignificante dentre tantos, que paga seus impostos honestamente, que não tem entraves na justiça, enfim que cumpre fielmente com todas as suas obrigações cívicas.

O simples ato de ir ao supermercado fazer suas compras, depois embalá-las com inocentes sacolas plásticas pode ser motivo para alarmar a população de um possível colapso no sistema de aterro de lixo. Voltar de carro do supermercado trata-se de um pecado sem tamanho, ainda mais quando seu veículo for alimentado com gasolina e tiver um motor potente capaz de consumir muita gasolina. A queima de combustível libera gases tóxicos que aumentam o efeito estufa que acabam aumentando o nível dos mares, aumentando assim as precipitações de maremotos, temporais, furacões.

Até o meu elevado consumo de carne acarreta danos à natureza; quanto maior o consumo, maior o numero de áreas plantadas, em contrapartida maior o desmatamento para pastagens, maiores queimadas. Chegar em casa, tomar um banho para relaxar me faz lembrar dos mananciais que estão sendo sacrificados pelo meu pequeno afago de uns minutos.

Não somos somente culpados por fenômenos naturais, somos culpados pelos sociais, tais como a miséria, esta sim se a causa não foi ocasionada por nós, mas o efeito sem dúvida poderia ser evitado se não fosse o nosso olhar egoísta, indiferente. A violência crescente que só nos damos ao trabalho de nos chocarmos apenas. Ficamos boquiabertos, nos revoltamos por um instante depois nos trancamos nos condomínios e dormimos tranqüilos.

As cenas foram daqueles filmes de terror antigos japoneses, que tinham efeitos especiais grotescos, feitos com isopor e explosões com faíscas pequenas e inundações em cidades de brinquedo. Desta vez era realidade, nada de efeitos especiais, destruição total, devastação, terror, mortes, desolação, catástrofe e palavra que define todo este pensamento: tragédia.

Não só o povo japonês está sofrendo, o mundo todo sofre com esta nação que nasceu para se reconstruir, eles estavam preparados, acreditem. Estavam preparados para morrer e não receberam com tanta surpresa o terremoto e posteriormente as ondas. Nós sim estamos surpresos, estamos pasmos porque o primeiro ministro se pronunciou e não elegeu nenhum culpado. Aqui no deslizamento no Rio de Janeiro os políticos elegeram as chuvas, nunca seriam eles por não retirarem as pessoas das encostas, obvio.

- Mas e aí Japonês, diz quem é o suspeito que a gente pega o malandro? Diria um delegado carioca.

Pois é, não há suspeito, não há culpado, não há sacola plástica para exorcizarmos, desta vez estamos livres, enfim não somos culpados de uma tragédia, deste genocídio. Somos inocentes desta atrocidade. Minha avó diria se tratar do final dos tempos, já eu acredito ser um ciclo natural apenas, como tantos outros que o planeta sofreu nestes quatro bilhões de anos.

Eu estou com a minha consciência tranqüila. Ainda acompanho as notícias com muita atenção e desconsolo, sinto as dores das pessoas, pois ainda tenho boas lembranças desta cultura rica e educada, posso, enfim fazer minhas compras tranqüilo no supermercado sem ser acusado de crime contra a humanidade.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Enquanto isso...


A rotina me consome de tal forma que meu corpo executa todas as suas tarefas diárias por osmose, sem comando algum, mesmo quando se tratar de uma atividade diferente, contudo já executada anteriormente.

O resultado de todo este mecanismo repetitivo é um cansaço descomunal, uma apatia para atividades simples que acabam se tornando um martírio executá-las. O que me levou a este resultado é, sem dúvida nenhuma, a minha mudança de comportamento, a rotina bucólica, o isolamento, a depressão, a subserviência minha para os que convivem comigo, as incertezas...

Qualquer esforço, por menor que seja vem acompanhado de um sonolento bocejo – meu maxilar se alonga ao máximo parecendo querer rasgar as bochechas. O olhar de desdém para escovar os dentes, sentar-se à mesa, tomar banho, fazer a barba, seguem a sina de quem um dia mantinha disciplina militar para fazer qualquer movimento corriqueiro.

Meus dias são encurtados, tenho excelentes noites de sono, me refugio e busco prazer nos sonhos, tento encontrar respostas ou pistas do meu futuro em todos os estágios do sono. Durmo profundamente com ou sem auxílio de remédios, meu corpo está programado para desligar-se automaticamente diante de um sinal de colapso de monotonia. Dormir, agora, trata-se de uma necessidade psicológica, um escape, meu ópio.

Meu ócio não é mais sinônimo de criatividade – como efeito colateral os remédios me trazem perdas na memória recente, tenho dificuldade em me concentrar, as palavras me fogem ao teclado. Sinto falta dos meus textos para me expressar, regurgitar tudo o que estou sentindo, colocar para fora sem entrelinhas, sem ter que explicar o porquê depois de dito. Meus livros foram todos encaixotados, principalmente os de auto-ajuda; agora auto-ajuda são meus textos que escrevi há anos atrás, que os releio e tenho sensações prazerosas graças as lacunas em branco na memória.

Se pudesse definir meu presente numa palavra eu definiria em incerteza. Nada pior para um meticuloso planejador, um prudente tomador de decisões do que não saber onde morará daqui há um mês, com quem trabalhará nesta época, qual universidade freqüentará, que ares o farão se movimentar novamente. A conjunção se, é a única capaz de tirar o meu épico sono. Se somente se eu continuar assim eu vou enlouquecer. A clausura, as procuras por novas atividades, as terapias alternativas, me deixaram estafados. Não há mais recursos, meu corpo fisicamente está perfeito, precisa de combate, excesso de anticorpos, está purificado e a minha mente precisa de realidade, chega de assistir televisão, imaginar o futuro e me refugiar em bocejos.






sábado, 5 de fevereiro de 2011

Curriculum Vitae


CURRICULUM VITAE (2006)

FABIANO P. DE L.
Solteiro, brasileiro, 25 anos.
R: Estevam P. , 335 – Jardim Paulista – CEP 19023-380 – Presidente Prudente – SP
Telefone: (18) 5555-5555
E-mail: prudentino@gmail.com



OBJETIVO PROFISSIONAL

Atuar nas áreas de desenho, edição e projeto relacionados à área de CAD. Tenho ótima experiência em informática e disposição para aprendizados em outras áreas de desenho. Disponibilidade para futuros deslocamentos e viagens. Possibilidade de investimento próprio em aperfeiçoamento técnico de acordo com a necessidade da empresa.


QUALIFICAÇÕES

Experiência em desenhos de toda espécie na área CAD, elaboração, edição, revisão, detalhamentos de projetos de instalações elétricas, arquitetura e engenharia. Desenvolvimento de “as build” em todos os seguimentos de engenharia. dar continuidade a processos quantitativos, cotações de preços, orçamentos relativos aos respectivos projetos.

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

1999/2006 – ESCRITÓRIO DE ENGENHARIA ELÉTRICA – Eng.º Responsável: Hugo C. M. M.

Cargo: Projetista/Desenhista.
Atuando atualmente na área de engenharia elétrica, como projetista. Realizo desenhos nas demais áreas de engenharia como profissional autônomo.

FORMAÇÃO ACADÊMICA

1995/1997 – Ensino médio completo – 2006 Cursando Superior de Enfermagem.

HABILIDADES ESPECÍFICAS

Domínio da ferramenta AutoCad, 2D, conhecimentos básicos em 3D.
Conhecimentos em Microsoft Windows, Word, Excel, Internet, Flash, Dreamweaver, Corel Draw, PhotoShop.
Básico em Inglês técnico.


(...) Nada como uma limpeza no computador para vir à tona velhas e boas lembranças. Ao som de Criador, Teatro Mágico, na suavidade de uma manhã fresca, depois de uma noite bem dormida – relembro os tempos onde a minha maior preocupação era saber se as impressões dos projetos sairiam ao meu tipo ou não.

É inegável que sinto falta do rapaz do interior de sonhos modestos e vida bucólica. Aspirações simples, objetivos tangíveis em curto prazo, preocupações mínimas, felicidade contida e principalmente de hábitos saudáveis.

Numa análise minuciosa depois de exaustivas aulas de administração de recursos humanos, psicologia organizacional, observo que meu currículo incorre em erros básicos que se tornam contraditórios. Focado na área de atuação de projetos de engenharia, mas meu curso superior em andamento é de Enfermagem. É assim que sempre me vi, fazendo atividades contraditórias que me completavam pelas virtudes das suas diversidades.

Depois desta pausa forçada passou-me pela cabeça voltar ao meu antigo oficio. Colocar meu currículo debaixo do braço e bater as portas dos escritórios dos ocupados engenheiros. Seria a tranqüilidade em detrimento do desafio, a limitação em contrapartida a uma aventura, seria meu amarrar definitivamente aqui, ficar seguro nos braços da minha família querida e viver tranqüilo.

Estou com a sensação de que sempre vivi numa bolha e que nestes quatro anos que se passaram eu ousei colocar os pés para fora, agora, depois de queimá-los, voltei-me novamente para meu abrigo, agora estou receoso em pô-los para fora novamente. Será preciso muito mais do que aventuras, diversão e simples desafios para me apetecer novamente.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sobre meninos e seus brinquedos.




Certa vez questionado sobre o que queria ganhar de aniversário, o menino titubeou: - Uma bola? Uma bicicleta? Não! Nada de atrativos mundanos - pensou ele; coisas que se desfazem com o tempo. Ele queria mais, então pensou em algo subjetivo, pouco alcançado por reles adultos; queria felicidade, ou melhor, ele queria A felicidade! Mas em que estado? Sólido, palpável, com pouca transpiração, de fácil inspiração e alto estado de digestibilidade.

Descobriu ele, depois de muitas tentativas que a felicidade é deveras cíclica - não tão equilibrada como a bicicleta e nem tão redonda quanto a bola.

Dias sim, dias não, vai-e-vem e logo o menino se questiona novamente: Mas o porquê de tanta instabilidade?

Não parece ser tão simples? Basta fazer o que gosta. Talvez simples na teoria, controverso na prática e, às vezes decepcionante no resultado. Nem sempre podemos fazer o que gostamos e quando conseguimos, às vezes descobrimos que tudo é em vão.

A vantagem de ser um menino é que nunca desistimos dos nossos sonhos, continuamos tentando, até que um dia chegue a confirmação de que a felicidade plena é muito mais divertida do que a bola, e se não for, não tem problema, eu vou andar de bicicleta.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Clínica de Reabilitação.

Tomei a decisão mais importante da minha vida e num REM (Rapid Eye Moviment) eu estava dentro de um hospital psiquiátrico, paramentado - não com a armadura de Jorge, mas com roupa de interno. Um piscar de olhos apenas. Foi a experiência mais incrível da minha vida: a passagem no tão mal falado hospício.
....louco não, mas sim, revelo-vos: adicto. Para quem não sabia (ninguém), foi um choque para todos, minha vida mudou e mudara para todo o sempre, Quem me lê, já fiz vários postagens com dicas, trocadilhos, duplo sentido, era só associar e voilá, temos um escritor viciado em drogas, álcool, antidepressivos e calmantes. Chocante não. Foi como dizer para minha família: Eu sou gay. Acredito que estaria menos preocupados se fosse apenas a minha opção sexual que estava em voga, mas o que impera é a minha saúde.

Meus amigos estão atônitos ainda, uns nem sabem onde estou, outros já querem me visitar, fiquei feliz com as manifestações de apoio de todos, inclusive no trabalho, onde obtive todo suporte. E o que me espera, o que vai acontecer, para onde vou, recuperação, recaída, Eu só quero mesmo é descansar, desintoxicar meu corpo e minha cabeça por enquanto.

Paulatinamente vou regurgitar os momentos passados e descansar agora numa clinica de reabilitação, numa longa caminhada de meses, dando prosseguimento ao tratamento – agora internado novamente, só que desta vez numa clinica especializada.

Levo comigo a esperança e a obstinação de quem sempre acreditou que no fim tudo dá certo.

Até a volta!!!