quarta-feira, 3 de julho de 2019

Enjoy-se


Sorveu lentamente até a minha última gota de felicidade; tornei-me cabisbaixo, fechado, sem expressão e confiança – matou-me sem assumir a autoria. Estou seco, ao avesso, com escaras expostas na minha psique; prostrado e com a pior das sensações na alma: A dor que não se sente, se vive.

Vivo sua vida, respiro sua rotina, me apego a migalhas das mensagens que raramente dispensa a mim; leio, releio, interpreto, fantasio e faço alusões; travo batalhas. Tiro conclusões precipitadas; amo-te com a maior das forças existes, ora te culpo, ora resigno a minha insignificância, aumentando minha baixo-estima.

Tento ignorar, excluir, não me aproximar, mas é um vício, um carma, uma doença. É obsessão pela dor, pelo sofrimento. Sentir dor é sentir-se vivo.
Eu era forte, autoconfiante, às vezes soberbo, mas era fruto das calcificações da vida e das experiências. A vida nos torna assim quando chegamos ao limite: ou matamos ou morremos, não há meio termo; é sobrevivência.

A intensidade resulta nisso; prazer imediato e depois morte lenta; olho-me no espelho e vejo no reflexo uma massa enorme de queratina, despenteada e desalinhada; um pouco grisalha; reparo nos detalhes do rosto, tento me imaginar como eu seria se tivesse alto controle; procuro por navalhas, tesouras, mas graças ao acaso não as tenho.

Se teria coragem de me cortar? Sim, imediatamente. As esterilizaria com álcool estéril – aqueles com cheiro de hospital e arrancava cada pelo da minha cara e cabeça; com precisão, firmeza e raiva.
Talvez utilizasse as lâminas para arrancá-la como se fosse uma metástase que se tornara parte do meu corpo e se alimenta da minha energia vital, levando-me ao colapso total.

Mas não teria coragem; pois quero morrer disso e, se tudo der certo, assim o será. 
- Mate-me, mulher.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Open up


Queria me confessar, mas procurava um juízo imparcial, por isso voltei para este lugar. Um ano absolutamente estranho; talvez a continuidade dos outros no qual me mantive inerte e aos frangalhos. Tive um comportamento assemelhado ao de Midas, só que ao contrário, tudo que eu tocava estragava, uma alta probabilidade de piorar e gerar consequências irreversíveis. Culminou com dois anos de abandono deste espaço. A continuidade do descaso é o próprio descaso.
Ainda tem muita sujeira para limpar, muita água suja correu por estas veias; sentimentos ruins que foram jogado para debaixo do meu travesseiro.
Ao contrário dos anos anteriores, criei expectativas dentro do vazio existencial que estava presenciando. 
Ainda estou com dificuldades em formular um parágrafo qualquer, concatenar pensamentos e pô-los no papel. Até mesmo a utilização da norma culta ainda me é dificultosa, - atrofiei essa característica.
Quero voltar a ler, escrever e viver disso emocionalmente. É o que eu quero para mim novamente.

sábado, 31 de janeiro de 2015

O dia em que morri antes da morte.




Deveria ter sido comigo; não tivemos culpa, eu não tive, taoquanto eles, mas a sensação de impotência naquele momento somado a empatia que sinto pelos colegas de trabalho, me condenou. Os gritos, as imagens, as faces de desespero, o barulho, a confusão...A incredulidade. Ninguém imaginava que isso ocorreria da forma como ocorreu, todos se precaveram, todos se ajudaram, foi feito o possível, esforço sobre humano sob o que tínhamos; mas minha consciência não absorve este alento.

Sempre me mantive frio; uma das características que aprimorei ao longo dos anos, principalmente em tempos de crise, mas não estava preparado para isso. Era teoria pura, era o “se”; a prática desconstrói conceitos. Aconteceu. Ver meus amigos reféns foi a pior estocada que levei no peito; latejou tanto que inflamou, estava virando um câncer.
Pensei nas esposas dos meus amigos vendo pela televisão as notícias, tentando ligar para o trabalho e não obtendo respostas; pensei nelas tentando explicar o que havia acontecido para os seus filhos. Comigo seria menos pior, tenho uma família solida, que confia em mim. Sou frio, mantenho a calma em situações adversas, tenho certeza que sairia íntegro e não teria que dizer, depois de tudo, que precisava voltar ao trabalho, pois é o que me sustenta. Tenho menos a perder, é triste mas tenho.

Confesso que descobri uma vulnerabilidade na minha personalidade: ameaçar as pessoas nas quais eu gosto. Peço água logo, entrego tudo o que tenho no momento; não tenho argumentos enquanto estão cortanto a minha própria carne e eu não posso reverter a situação. Da próxima vez (sim haverão), sei como me comportar, empiricamente.


PS.: Não mexa com meus colegas de trabalho, ok?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

SUCEM


Quando eu era criança, meados de 1987/88, um dos meus passatempos favoritos era correr arás do “caminhão da dengue”.  Estudava pela  tarde -  nosso uniforme era um short semelhante ao da adidas, azul gritante, de brim, resistente, aberto nas laterais, bem curto. Característico da moda oitentista.  O caminho da escola até minha casa, era relativamente curto, durava em torno de quinze, talvez vinte minutos.  Voltávamos aos bandos. As meninas voltavam com familiares; nós, nos divertindo. Pisando em cascas de sementes “crocantes”; jogando coquinho uns nos outros; pegando acerola alheia entre outros, quebrando tijolos e jogando mamona nas costas dos colegas.
Chegava em casa, tomava meu banho, apresentava o caderno com as tarefas do dia, todas executadas e ia brincar na rua até o anoitecer, este era o limite. Havia um dia da semana na qual a extinta SUCEN de Presidente Prudente (Superintendência de controle de endemias) disponibilizava uma potente D20, adaptada com um equipamento que vaporizava um potente inseticida que, na teoria, eliminava os mosquitos da dengue.
Era moleque, adorava desenhar, sempre fui elogiado pela criatividade com o giz de cera. Sempre ilustrava bem o vetor da dengue. Tínhamos exaustivas aulas de ciências sobre esta endemia; detalhes da transmissão, prevenção e tratamento. Era massificado.
Mas o que me divertia era fechar todas as janelas, cortinas, colocar um lenço no rosto, tal qual um herói do bang bang e correr atrás do caminhão. Era um barulho ensurdecedor, ele trafegava lentamente e, por onde passava, deixava seu rastro de fumaça; a salvação da humanidade.
Dias atrás acordei com estridentes palmas. Achei que era alguma entrega do serviço de correios, era cedo, aproximadamente nove horas. Havia trabalhado no dia anterior, caso não estivesse esperando alguma encomenda, mal me daria o trabalho de me levantar. Era uma jovem simpática, se identificou como agente de saúde e disse que precisava vistoriar a minha residência. Prontamente me recompus, pus uma roupa, abri o portão. Observei atentamente o crachá de identificação e a deixei entrar. Logo de início, me perguntou se cultivava vasos de plantas, aquários ou qualquer prática que fosse propícia à proliferação do vetor da dengue. Disse que não. Logo, pelo meu perfil, simplificou a visita e me disse: - “Onde fica a dispensa?”. Achei estranho e a questionei. Ela disse que porque o controle formal era feito num catálogo que era preenchido e deixado neste local. Levei-a ao local e carimbou o cartão e fez anotações. Depois disso, olhou para mim e disse um texto padrão, destes bem decorados, no qual fez perguntas para mim, questionando se eu apresentava algum dos sintomas; talvez uns quinze, da dengue. Eu disse que não, pois os conhecia. Ela acabou me confessando que, foi intimada a visitar todas as residências num raio de trezentos metros da minha, pois haviam diagnosticado um caso de dengue hemorrágica neste período.
Confesso que fiquei assustado, pois, me lembro bem dos sintomas, causas e efeitos desta moléstia. Aprendi na escola; escola pública. Abri o portão e fiquei receoso.
Passaram-se quase trinta anos e ainda este mosquito assola a nossa população. Não consigo entender, pois, no meu caso, foram necessários APENAS uns meses para entender o perigo disto.  Na minha educação eu descobri que existem dois tipos de “pedagogias”. A de instrução formal e a de “punição”. Se uma não funciona, se faz necessário utilizar-se da outra. Já é hora de colocar em prática a segunda opção.


Fabiano Pereira é aspirante a escritor;  teve infância, porém não adolescência;  oitentista, sofre de neofobia; Lê e faz amigos indiscriminadamente; tem problemas com a balança, mas segundo consta, é feliz.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Dois de carne com legumes, um pão de alho e uma coquinha de garrafa, por favor.

Acordei cedo para um domingo chuvoso.  Assisti aos programas dominicais da TV aberta ao mesmo tempo em que me atualizava das notícias pelo telefone celular.  Selecionei a minha região, o meu Estado e cai numa página genérica.  Noticias triviais: protestos, acidentes automobilísticos, movimentação política regional e a notícia da captura de suspeitos de latrocínio contra a vida de um empresário de Foz do Iguaçu. Fiquei curioso, de certo, apesar de ser um fato corriqueiro. As pessoas morrem diariamente, indiscriminadamente e nós nem ficamos sabendo. É tudo muito rápido, um flash. As pessoas morrem, as famílias ficam em choque, ninguém quer acreditar. O corpo passa por perícia ao mesmo tempo em que são feitos os preparativos para o funeral. As pessoas são avisadas às presas, acredito que grande parte nem comparece ao velório, mas vão ao enterro. Este lapso temporal não demora mais do que um dia. Talvez você esteja no trabalho, incomunicável, ou viajando, ou mesmo em casa, sem comunicação por telefone. Quando fica sabendo esta pessoa não está entre nós. Não é como um parto, ninguém espera pela morte. Nem o mais pessimista, nem ele. É um instinto - sem sombra de dúvida o nosso mais incipiente instinto. Eu não sei como reagir, não consigo fazer cognição deste fato. Particularmente, ninguém que tenha meu sangue morreu, parente consanguíneo  Havia apenas um tio que fora casado com minha tia, contudo ele não era filho da minha avó.
Foi uma experiência indescritível, pois eu simplesmente travei. Não expressava nenhuma emoção, eu não processei este episódio no momento, num primeiro momento eu agi com frieza, num segundo também. Não quis entender, Não precisava ter que aceitar a ideia também porque era algo irreversível: a morte não tem que ser entendida, tem que ser sentida. Fiquei tento flashes destes momentos por muito tempo. Liberei um choro desesperado, inconsolável e tardio. Um misto de sentimentos: culpa, saudades, dor.
Definitivamente eu não sei como proceder, eu tenho medo. Eu espero a morte sim, é estranho isso, não é pessimismo, é realismo. Isso não me impede  de viver, pelo contrário, me entusiasma. Minha avó, vai morrer, minha, minha irmã, minhas tias, primos, meus amigos íntimos.
Querendo eu ou não.


Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?
(Confúcio)


A notícia da morte que me deixou pensativo foi a de um proeminente empresário da cidade pela qual morei os mais intensos cinco anos da minha vida. Eu o conhecia por ser freqüentador do seu estabelecimento comercial, sua história era um exemplo de vida e de orgulho para toda a cidade. Era simpático, aficionado pelo trabalho. Sinceramente não fiquei chocado com a morte em si, apesar de ser uma grande perda. Na verdade, a notícia me remeteu às queridas pessoas que passaram na minha vida nesta época – pessoas incríveis que fazer uma falta que sinceramente jamais será reposta, verdadeiros irmãos. Era o local onde nos reuníamos no final de tarde para jogar conversa fora. Obviamente não era isso que ele queria, logo seria injusto desejar que ele descanse em paz. Na verdade eu desejo que a família sim, descanse em paz e que tenha sempre ele nas suas lembranças.
Queria uma imagem que retratasse a morte, mas que fosse desvinculada de alguma religião ou que não representasse uma punição, mas não encontrei. Link para a notícia:



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sete anos no Tibet

Me peguei hoje sorrindo sozinho, no transito engarrafado, no caminho para faculdade. Era para ser uma situação conflitante, estresse, de questionamentos, mas foi apenas um ínterim de sorrisos. Combustível acabando, sem dinheiro para comprar meu lanche na faculdade, tarefas acumuladas...
Estava indo para outra jornada, tão quanto difícil, desafiadora e extenuante. Percebi, que, por um instante, não teria motivos para reclamar da minha vida, mais especificamente, do meu trabalho que eu, realmente, gosto do que eu faço. É controverso admitir isso, até porque estou procurando outros caminhos, mas eu gosto do que eu faço. Por mais absurdo do que pareça, sim, eu gosto de estar numa cadeia: do ambiente hostil, da falta de ferramentas, do perigo, do ambiente insalubre, dos quilos de remédios controlados que eu consumo.
Há, é uma diversão! Sim, o risco de vida, o perigo, as minhas habilidades interpessoais postas em xeque. Eu tomo a decisão, eu decido, eu ordeno, eu tenho o poder, eu mudo o destino das pessoas e, por conseguinte, o meu.
Talvez, nestes sete anos, numas das parcas especializações, a melhor de todas, a melhor frase da minha vida, a resposta que eu procurava a séculos, que não me deixava dormir, que me deixava agressivo no transito. Sim, eu sou crítico, sou questionador e o que me motiva não é o que eu produzo, mas o que eu prospecto.
Sabe qual o resultado do meu trabalho? Sabe? As estatísticas dizem: ele é zero, negativo, insignificante. Pois bem, eu pensava assim. Ate ouvir as sábias palavras de uma colega, devota do sistema, psicóloga que me ministrou um curso.
Sabe qual o resultado do seu trabalho “cidadão”? Sabe? Tem noção? Pois bem, o resultado do seu trabalho é o seu próprio trabalho.
Este é o resultado: se ele não sai como o planejado, ou como as pessoas esperam, eu o fiz. Com devoção, prazer e afinco. E o resultado é este. Bom ou ruim, isso não me cabe julgar. Eu fiz o meu melhor, tenho certeza. Dei meu sangue, minha vida, minha segurança pessoal, mas fiz o meu melhor. Se o resultado não foi o esperado, este, não depende apenas de mim. Eu sigo as regras, eu me dedico, dou meu sangue, faço além das minhas possibilidades, mas o resultado não depende tão somente de mim. Depende quem quer mudar. E isto, as duras penas, não cabe a mim.
Que venha o próximo plantão!


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013




Falta de sono aguça a minha sensibilidade. Fico perdido em vários mundos contidos em universos paralelos.  Não tenho chão, dimensões, limite tãoquanto equilíbrio. Meu corpo perde suas extremidades, rastejo para todos os lados. Contorço: Assimilo espaços vazios. Perco os limites da física. Derreto: desfaço, desfaleço. 
Volto na mesma velocidade que fui. Lento, meus movimentos deixam rastros. Confusão visual. Perto parece ser longe. Próximo nunca estive. Vejo flashes, imagens desconexas. Faço planos em milésimos de segundos. 
Executo. Aborto.
Tento gritar. Rodopio. Caio.
A voz não sai. Sons distorcidos soam do meu corpo. Rostos misturados, lembranças embaralhadas.
Sou primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo. 
Irregular, imperfeito. Tento dormir, apago. Retorno. 
Sinto espasmos, me debato.
Desconcentração. Desconforto. Ansiedade. 
Sinto força, energia vital. 
Explodo. 
Bocejo, durmo.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Psiqué.





Você precisa viver mais a sua vida, pensar mais em si – nem tudo o que pode ser um problema para você, realmente o é. Permita-se.

Definitivamente não era o que eu estava esperando ouvir; queria valorizar minha dor, macular a felicidade, pormenorizar momentos da minha tristeza. Precisava fazer valer a pena todo aquele sofrimento, queria que alguém também o sentisse – compartilhar-se comigo aquela dor, - sim, estou sofrendo demais.
Não houve empatia, confesso que sou avesso a estereótipos de auto-ajuda, na verdade houve uma rejeição por minha parte. É a primeira impressão, queria saber seus títulos, sua experiência no que tange ao meu problema, enfim, queria fazer minha avaliação da profissional.
Pouco falei, ouvi teorias das quais eu já conhecia, técnicas ultrapassadas, mas ouvi conselhos interessantes –, novamente estou entusiasmado com a teoria da redução de danos. Precisava me apegar em algo, mesmo podendo pouco me expressar, pude transmitir a minha mensagem: “Ei, não diminua meus problemas, potencialize-os, valorize-os, concorde comigo; estou no fundo do poço.”
A priori, com um diagnóstico rápido e sucinto, meus problemas foram enquadrados na “carência afetiva”.

O que te leva a fazer tudo isso Fabiano? Todos nós temos um motivo para um desvio de comportamento.

Fiz como um cão, corri atrás de um carro, latindo e, quando o carro parou não soube o que fazer. Talvez isso responderia a sua pergunta: eu não sei o real motivo. Talvez já tenha parado para pensar, mas nunca tenha chegado a nenhuma conclusão plausível.

Foi só a primeira sessão, afinal.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

R.





Estava com o pensamento solto, viajando, quase na que estratosfera, quando me veio à tona lembranças que me ocorrem de vez em quando, para dizer a verdade freqüentemente, pois nada mais sou do que um punhado de boas lembranças e muitas aspirações a um futuro feliz.
Abri a janela, deixei bater a suave brisa de primavera no meu rosto e respirei fundo. Fechei os olhos e pude ouvir a sua estridente gargalhada. Simples assim, como sempre, sem motivo aparente: O e-mail, o pensamento, a gargalhada, a lembrança...
Já tive muitas experiências que me marcaram, mas acredito que três foram as que mais marcaram a minha vida: a primeira foi você e as outras duas ainda não aconteceram...

Agora.




Às vezes tenho vontade de rasgar o meu peito com uma tesoura afiada, interromper um fluxo importante de sangue, faze-lo meu curso e nadar de braçadas. É com este ímpeto que me sinto quando a existência se torna algo sem atrativos. Não adianta mudar a trilha sonora, inverter o lado na cama ou ligar a televisão. Faz-se necessário algo que meu corpo compreende e assimila extremamente de forma lúdica – o meu insaciável imediatismo. E sou tão apetecido por ele, que deixo de lado até o meu insuperável ego. Eu desejo o que provenha de forma rápida, tácita e pago relativamente caro por isso. Sou um bom pagador.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012.




Queria poder fugir do clichê e não fazer um balanço do ano que se passou. Ano morno, de mudanças bruscas, de recuperação, de expectativas – ano intermediário, preparatório, enfim, indispensável. Os prognósticos são os melhores possíveis: uma cidade nova, livros novos, estudos, pessoas novas.

Novidade me nutre temporariamente, atrai minha atenção; prende-me na janela de expectativas da vida, vendo-as desfilar.

Quero um ano bom, rico e abundante em tudo, é só o que eu quero.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Escolha a alternativa correta.




Apenas algumas horas para o vestibular: cidade nova, curso novo, vida velha. Sinceramente não sei se é o curso da minha vida, só saberei mesmo quando tiver ano que vem na mesma situação: preparando-me para mais uma escolha.

Como numa peça de teatro, em vez de me desejar sorte, gostaria que me desejassem que eu quebrasse a perna!


(Lapis, caneta, borracha, água, ansiolítico, auto-controle e pressão).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Segue o seco.




Cai uma chuva fina, lenta, daquelas cadenciadas, na qual você pode prever quando será o próximo pingo; momento propício para embalar o que eu sinto agora.

Achei que seria fácil, pensei que, sem falsa modéstia, eu com minhas habilidades, nos sairíamos bem – poríamos tudo e todos no seu devido lugar e com o tempo, voltaria a exalar SEROTONINA para todos os lados. Recomeçar não é ruim, difícil mesmo é findar um ciclo para depois começar outro. Infelizmente, existem determinadas situações que se sobrepõem as boas perspectivas de uma mudança física. Elas têm peso, um peso vivo, cansativo. É a fase de adaptação ao novo lugar que não pode ser atropelada como deveria: a duzentos quilômetros por hora por minha vontade de interagir. São os estranhos que circulam rapidamente ao meu lado na rua; os que insistem em me ignorar no trabalho; as ruas que tendem a me confundir sempre com seus nomes novos e suas esquinas inexploradas. É o ar seco que alimenta ainda mais minha congestão nasal.

Sinto um leve arrependimento... O sentimento de desafio, agora se encontra adormecido, ao contrário das minhas lembranças de tempos atrás que estão cada vez mais vivas.

Ô chuva vem me dizer
Se posso ir lá em cima prá derramar você
Ó chuva preste atenção
Se o povo lá de cima vive na solidão
Se acabar não acostumando
Se acabar parado calado
Se acabar baixinho chorando
Se acabar meio abandonado
Pode ser lágrimas de São Pedro
Ou talvez um grande amor chorando

(Marisa Monte, Segue o seco).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um par.



Um ParLos Hermanos
Composição: Rodrigo Amarante
Mesmo quando ele consegue o que ele quis,
Quando tem já não quer
Acha alguma coisa nova na TV
O que não pode ter
E deixa de gostar
Larga mão do que ele já tem
Passa então a amar
Tudo aquilo que não ganhou
Dê motivo pra outra vez acreditar
Na cascata da vez
Que você comprou assim zero mais dez
Um presente pra mim
Mas se eu perguntar
De onde veio esse agrado
Você vai gritar
Diz que é homem feito, sei não
Ah faça-me o favor
Diga ao menos o que foi
E se eu faltei em te explicar
Diz que a gente sempre foi
Um par
Sai domingo diz que é o dia de jogar
Mas que jogo eu não sei
Fica até segunda o dia clarear
E troféu não se vê
Entra sem falar
Sai correndo e volta outra vez
Sem cumprimentar
Nem parece aquele
Eu rezo, ai deus do céu
Ou alguém no chão
Diga-me o que foi
Que eu deixei faltar
O que eu não consigo é entender
Como é que um filho meu é tão diferente assim
De mim
Me faz entender.

(Acho que sou assim, exatamente assim, milimetricamente assim, larga mão do que já tem e passa a desejar tudo aquilo que não ganhou. Isso justifica minha gana, minha vontade e meu descontrolado impulso. Há, se não fossem eles, quem eu seria. A velhice é física apenas, meus atos continuam atemporais.
Abri uma garrafa de cerveja e depositei nela todas as minhas expectativas, respirei fundo, imaginei, desejei, absorvi. Eu quero muito mais, estou lutando e planejando para conseguir mais...entretanto ainda não sei mais o que eu quero...)

Toca pra mim...





Estava correndo como um jovem sonhador atrás dos seus ideais, transpirava por todos os poros do meu corpo; a mente, concentrada, tentava dosar minha energia durante as minhas rápidas passadas. Meu corpo já não responde aos mesmos estímulos de anos atrás, mas ainda continua com a mesma coordenação motora para executar movimentos repetitivos.

Queria voltar no tempo, queria poder mudar minúsculos erros, quase imperceptíveis à vida cotidiana – nada de melancolia ou arrependimentos, apenas um aperfeiçoamento do meu destino, uma nova chance para velhos acontecimentos.

Há tempos não praticava um esporte coletivo, há tempos não disputava algo com tanto afinco, liberdade.

Não esqueci aquilo que havia aprendido há quinze anos - apenas alguns minutos, ritmo de jogo, colocaram-me novamente no patamar de um astuto armador. Havia se passado vinte, trinta minutos de jogo, estava esgotado fisicamente, mas superava pela vontade. Dado certo momento pedi a bola com vigor:

– Toca para mim, toca para mim!!!

Era uma chance real de gol, bola curta, próximo a linha do escanteio. Naquele momento concentrei toda a minha força num chute. Corri para a bola com o máximo de velocidade e desferi um chute mascado, acompanhado de um desequilíbrio do pé de apoio e uma dolorida torção de tornozelo.

Cai no chão, sentia meu tornozelo formigar, executava poucos movimentos com o pé, tamanha era a dor. Era o fim de jogo para mim. Recolhi-me mancando, tentando me equilibrar numa perna só, com medo de firmar o tornozelo fraturado.

Estava tentando voltar no tempo em atos – executando atividades que me remetiam ao passado, mas infelizmente a minha realidade é outra, não posso corrigir pequenos passos dado no passado, forçando meu presente.

A dor, esta sim é atemporal – tanto a física quando a emocional – a física acaba sempre passando, já as outras...


sábado, 19 de novembro de 2011

Boom.



Bocejo como um louco; evidencias indicam não haver sono, mas não consigo controlar este impulso. Meus olhos estão estalados, em estado de alerta, pele sensível, respiração deveras ofegante. Deveria ter sido mais prudente, é verdade. Minhas mãos estão trêmulas tal qual um quem não come há dias. Não sei o que fazer, sinceramente – viver, atualmente com doses parcas de remédio, fracionadas para durar até a próxima sessão terapêutica está literalmente me engolindo. Sinto medo do nada, do silêncio, dos ruídos. Suo em bicas mesmo sem fazer o mínimo esforço físico. Não há paliativos, não psicológico, é químico.

Ansiedade em seu estado puro, bruta e violenta em doses homéricas. Preciso de um ansiolítico descansando lentamente no meu estômago.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Fuel.



A ansiedade é um monstro, quando mais alimentada maior fica e, conseqüentemente, sem controle. Começa dentro do peito e como numa reação em cadeia, espalha-se por todas as partes do corpo. O corpo todo treme, pulsa, gela. Calafrios, confusão mental e um leve desespero tomam conta das situações.

Seu alimento é a incerteza, o futuro, as decisões: quanto maior a expectativa, maior o efeito rebote. Por ora experimento pequenas porções de ansiedade, geralmente em picos noturnos. Temos uma relação estreita, a ansiedade sempre me impulsionou, seja para o bem ou para o mal. É um sentimento paradoxal: é o meu combustível, mas ao mesmo tempo torna-se perigoso demais, se consumido em altas doses.

No momento meus receptores da ansiedade estão parcialmente bloqueados, o que me rende relacionamentos sem expectativas, mudanças abruptas de planos e boas noites de sono.

domingo, 23 de outubro de 2011

Momentos mornos.


Insônia é algo que não faz mais parte do meu cotidiano. Queria poder tomar um café preto, amargo, degustar de bons momentos de reflexão, à luz da falta de sono, olhos estalados, corpo febril, mas os remédios me impedem...

A vida nos reserva momentos intermediários de sentimentos. Nem de tristeza absoluta, nem felicidade extrema. São intervalos, hiatos que beiram o tédio, e geram inconformismo. São situações perigosas, principalmente para quem é alimentado por uma instabilidade descomunal. Mudar de ares me fez cair num ostracismo que há tempos não era sentido, remetendo a minha acanhada adolescência, onde conflitavam hormônios com a depressão.

A minha imensa parte que vive a me corromper por popularidade, agora, destoa totalmente daquilo que vivo: um sem-fim de expectativas murchas.

Neste exato momento estou me questionando o porquê de correr atrás de um carro em movimento, tal qual um cão que o persegue com afinco, de ofício. Continuo a correr sem parar, cada vez mais, esperando que ele não pare, evitando assim uma tomada de atitude.

Estou numa fase longa, sufocada por poderosos remédios que limitam a minha criatividade e influenciam diretamente as minhas tomadas de decisão. Não é melancólico, mas há tempos meus olhos não brilham por mais de dias seguidos – continuidade, seqüência.

Peguei-me, no meio de um raciocínio, durante a resolução de um problema matemático, me questionando o porquê de resolvê-lo. Achei a solução para a equação, para meu desespero total. Noutros tempos, apenas encontrar a solução seria o ápice, independente do objetivo fim.

Estou estranho, é verdade, preciso parar de me esconder atrás de metáforas e voltar a ser eu mesmo, que tanto trabalho me dá, contudo me rende ótimas experiências de vida e bons textos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pragas urbanas.

Pós rebelião, estávamos todos reunidos, nós – os agentes, e os presos responsáveis pela limpeza do local. Um dia atípico, os sinais da destruição estavam por todas as partes: paredes quebradas, grades entortadas, colchões queimados e uma sensação de impotência reinava sobre nossas intenções. Eu, recém transferido, ainda me confundia nos caminhos da imensa construção, mal tive tempo de memorizar as saídas. Embora tentando fugir do senso-comum, não conseguia assimilar o duro golpe dado no aparato estatal, continuava procurando respostas e acalento.

Durante a limpeza, muito entulho sobre os corredores, proporcionou o aparecimento de ratos. Eram muitos, de todos os tamanhos, espécies. Dado certo momento, o nosso cruzamento era inevitável e foi o que aconteceu. Enquanto observava um preso remover os entulhos, avistei um enorme rato vindo em minha direção, completamente desesperado e sem ter por onde desviar. Por um instante, os presos voltaram a sua atenção para o rato desesperado e, conseqüentemente qual reação seria a minha. Noutra ocasião, talvez apenas me esquivasse do animal, deixando-o seguir, mas minha atitude, devido à platéia, deveria ser mais enérgica.

Desferi, ainda sem jeito, um chute que o acertou em cheio, contudo ele se recompôs e continuou a vir na minha direção; desta vez com mais força, o rebati contra a parede, atordoado, ficou estático. Foi o tempo de um preso pegar um tênis que estava perdido no meio da sujeira e desferir violentos golpes, vários, mesmo enquanto já parecia certa a morte. O rato, vencido, já morto, deixou um lastro proporcional de sangue, ainda sentia o ódio e espírito assassino do preso, que só parou de bater quando o animal parou de estremecer. Rindo, teceu o seguinte comentário: “...mais uma alma para o além”.

Preciso rever meus conceitos sobre direitos humanos.

sábado, 17 de setembro de 2011

Rebelião.





80% da CCM foi destruída

Roberto Silva e Rubia Pimenta

Engenheiros da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e dos Direitos Humanos (Seju) concluem hoje a vistoria na estrutura da Casa de Custódia de Maringá (CCM), palco de uma rebelião que durou 23 horas, encerrada na manhã de ontem.

Eles vão verificar os danos estrutural causados durante o motim e apontar as obras que serão necessárias para recuperar a unidade prisional.

Segundo a assessoria de imprensa da Seju, 80% do mobiliário da CCM, principalmente camas e colchões foram destruídos. Já o Sindicato dos Agentes Penitenciários do Paraná (Sindarspen) afirma, com base em informações passadas por agentes que trabalham na unidade, que 90% foi destruído pelos presos.

Grades, muros e portas foram quebrados e pertences espalhados por todas as galerias. A possibilidade de interdição da unidade, por enquanto, foi descartada.

A rebelião terminou depois que a secretaria aceitou transferir 31 detentos para unidades prisionais de suas cidades de origem, acatando uma das principais reivindicações dos rebelados. Dos 900 internos no presídio, aproximadamente 400 participaram do motim.

Detentos rebelados mostram os presos que foram feitos reféns; apesar de exaustos, eles não se feriram

Eles mantiveram como refém o agente penitenciário Paulo Arruda e dois presos, que foram liberados assim que a rebelião foi encerrada. Apesar de exaustos, eles não foram feridos.

Durante a manhã, os presos ainda atearam fogo a roupas e colchões em um dos setores do presídios. Os integrantes do grupo conhecido como "Ferro Velho", em Maringá, liderados por Benedito Batistiole, foram os últimos a se renderem. Eles foram presos no início de julho em uma operação da Polícia Federal (PF).

Logo após, os amotinados desceram da laje e ficaram deitados, apenas de roupas íntimas, no pátio do presídio, para revista. A Polícia Militar (PM) e agentes penitenciários iniciam um processo de varredura na Casa de Custódia, para avaliar os estragos e recolher as armas utilizadas pelos rebelados.

Transferências

Maico de Souza Moretti, 25 anos, conhecido por Guerreiro, tido como líder da rebelião, e outros 22 presos foram transferidos ontem por volta das 11h para um centro de triagem em Curitiba, de onde seriam posteriormente remanejados para unidades em suas cidades de origem. Outros oito presos aguardavam contato Vara de Execuções Penais com a Justiça de outros Estados para que sejam transferidos.

O comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar (BPM), Chehade Elias Geha, não permitiu que a imprensa acompanhasse a descida dos presos.

Os primeiros internos foram transferidos logo após o término do motim

Familiares se revoltaram com a atitude e tentaram barrar a entrada de uma das viaturas no presídio. Houve confronto com a polícia e algumas mulheres disseram ter sido agredidas. Elas temiam que os policiais agridam os presos que ficarem no presídio, fato que foi contestado pela PM.

Início

A rebelião na Casa de Custódia foi iniciada por volta das 12h30 de segunda-feira, com cerca de 20 detentos que estavam na galeria 2, e se espalhou rapidamente. Presos do regime semiaberto e pertencentes a grupos evangélicos não aderiram ao movimento.

Os rebelados chegaram a hastear uma bandeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa conhecida pela atuação em presídios do Estado de São Paulo. Não houve confirmação se os amotinados tinham relação com a facção.

Os detentos reclamavam que eram constantemente agredidos e recebiam comida "azeda". A Justiça vai analisar as denúncias de maus tratos e de má alimentação na penitenciária. Também cobravam mais agilidade nos processos de pedido de liberdade na Justiça em Maringá.

A rebelião terminou com um ferido. Trata-se de um interno que tentou fugir da CCM , durante o motim. Ele levou um tiro no ombro, foi internado e passa bem.

Mais remoções

A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e dos Direitos Humanos informou que nos próximos dias haverá o remanejamento de mais presos para outras unidades, de acordo com um levantamento que está sendo realizado. "Temos mais de 100 presos do regime semiaberto que poderão deixar a Casa de Custódia de Maringá agora", afirma o diretor do Departamento Penitenciário, Maurício Kuehne. A CCM tem capacidade para 500 presos, mas abrigava quase 900.