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sábado, 19 de março de 2011

No come down.




Tem horas que a minha vontade é colocar o player nas músicas do Verve para tocar, ascender o cigarro que nunca fumei, tomar uma Cerveja Müller – que seria minha nova preferida; debruçado no balcão de um pub, respirando toda a fumaça e de preferência sem acesso à luz do dia. Servido pacientemente por garçons oriundos do Leste Europeu, mão de obra barata e bonita e; cercado por pessoas estranhas vagando ao meu lado: policiais assassinos, soldados da guerra-fria reformados, atrizes circenses, ex-padres, cantores líricos e vegetarianos. O horário escolhido seria o agora; medido por bocejos matinais e entregadores de leite puro, casa por casa. O idioma corrente deste círculo seria indecifrável aos comuns; criptografado por pessoas hereges, permeadas por pensamentos insanos, de contestação. A nossa moeda seria a melancolia.


Nunca me senti tão limitado assim, como agora, nesta noite. Estou no lugar errado, na hora errada e na época errada e fazendo coisas tidas como certas.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sobre meninos e seus brinquedos.




Certa vez questionado sobre o que queria ganhar de aniversário, o menino titubeou: - Uma bola? Uma bicicleta? Não! Nada de atrativos mundanos - pensou ele; coisas que se desfazem com o tempo. Ele queria mais, então pensou em algo subjetivo, pouco alcançado por reles adultos; queria felicidade, ou melhor, ele queria A felicidade! Mas em que estado? Sólido, palpável, com pouca transpiração, de fácil inspiração e alto estado de digestibilidade.

Descobriu ele, depois de muitas tentativas que a felicidade é deveras cíclica - não tão equilibrada como a bicicleta e nem tão redonda quanto a bola.

Dias sim, dias não, vai-e-vem e logo o menino se questiona novamente: Mas o porquê de tanta instabilidade?

Não parece ser tão simples? Basta fazer o que gosta. Talvez simples na teoria, controverso na prática e, às vezes decepcionante no resultado. Nem sempre podemos fazer o que gostamos e quando conseguimos, às vezes descobrimos que tudo é em vão.

A vantagem de ser um menino é que nunca desistimos dos nossos sonhos, continuamos tentando, até que um dia chegue a confirmação de que a felicidade plena é muito mais divertida do que a bola, e se não for, não tem problema, eu vou andar de bicicleta.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Rapidinhas.



(...)
Meu desempenho na universidade é dos piores, minhas notas estão aquém da minha capacidade e diretamente proporcional ao meu interesse pelo meio acadêmico.

(...)
Lexotan tem sido meu fiel da balança. Outro dia me perguntaram para que servia, eu disse que era um remédio para a memória. – Está com problemas de memória? – Sim, vários, a minha funciona bem demais...

(...)
Eu me inscrevi num curso teórico de Direitos Humanos. As aulas começaram há dez dias e eu ainda não apareci. Acredito que haverá conflito de idéias entre eu e meu orientador.

(...)
Eu já desconfiava, mas agora descobri que tenho um ego do tamanho do mundo, principalmente no que tange a conquistas. Estou passando por uma crise de provação aos trinta e tenho me saído bem. Assunto de “meninos” na pauta. É só eu tomar uma “invertida” que passa. Enquanto não vir, vou me saciando.

(...)
Surgiu uma oportunidade de deslocamento no trabalho para outra cidade, estou seriamente tentado a me mudar. Cidade universitária, outras oportunidades, proximidade com a família. Já não estou tão preocupado com semestres e anos perdidos, acredito ter um bocado pela frente.

(...)
Ainda não me sinto seguro para voltar a praticar exercícios físicos, o problema de saúde ainda persiste. Ao contrário do que muitos imaginam eu me preocupo com a minha saúde.

(...)
Num encontro recente, perguntaram-me sobre meu último namoro, eu tentei esquivar dizendo que não haveria motivos para falar de relacionamentos passados num primeiro encontro, entretanto, devido a insistência eu comentei. Fui interrompido logo no começo, perguntei o porquê da interrupção já que fui questionado - disse que era melhor parar porque meus olhos brilhavam demais enquanto eu falava e porque usava verbos no presente. Houve um silêncio, eu engoli seco e fiquei constrangido.

(...)
Estão me ligando desesperadamente do banco, porque será?

(...)
Preciso de férias urgente, de tudo e todos. “Resetar” a memória.

Curtas.

(Última semana...)

(...)
Conversa de final de plantão, todos sentados no chão, relaxados, entre amigos. “A” pergunta se alguns dos presentes receberam o e-mail com a foto de um agente de São Paulo que foi flagrado tentando entrar com celulares escondidos. Todos dizem que sim e cada um expressa sua opinião. “A” completa dizendo que deveriam ter espancado o funcionário que cometeu tal ato, que deveria ser execrado e queimado em praça pública. “B”, mais sereno diz que “A” não teria coragem de fazer nada a não ser ignorá-lo. “A”, fica surpreso com a reação de “B” e recua. “C” entra na conversa e resolve testá-los hipoteticamente: pergunta qual seria a reação de “A” ao saber que “B” (amigo de longa data), fosse o funcionário. “A” diz ironicamente que não iria fazer rifas para pagar o advogado. “D” entra na conversa e diz que ainda bem que nunca tivemos casos de corrupção, pelo menos no círculo dos agentes, mas ressalta que houve uma suspeita de um amigo muito próximo de “C”. Por sua vez, “C” sente-se ofendido pelo amigo, diz que houve suspeitas não comprovadas, mas abstém de uma defesa parcial de seu amigo que não está para se defender e diz apenas que, cada um responde por si e faz uma revelação: – Talvez vocês não saibam, mas eu quando desconfiei de algo, como melhor amigo tive duas atitudes: a primeira foi questioná-lo e a segunda foi alertar a chefia para que averiguasse.

- Muito maior do que a amizade que nos prende são os princípios que eu carrego comigo. - Finalizou “C”.

Todos chegaram a um consenso e é talvez este o motivo pelo qual eu tenha orgulho de trabalhar com estes caras: A corrupção é o câncer do serviço público.


(...)
“D” faz uma brincadeira pelo rádio no final do plantão que é interpretada como ofensiva pela chefia e pelo colega “E”, que retruca imediatamente. “A”, de imediato, sente vergonha e, ao ser questionado, nega a autoria dos fatos. “D” e “E” são amigos próximos e até pouco tempo havia uma hierarquia entre os dois, agora não mais. A brincadeira gera muitos comentários e “D”, sente-se na obrigação moral de reparar e espera o melhor momento. Durante a reunião matinal, diante de toda a equipe, a chefia e “E”; “D” toma a palavra e desculpa-se. Todos se surpreendem, inclusive “D” que sempre está com a razão.